A casa mais roots do Brasil
Editorial

Conhecimento e resistência


A Casa do Reggae está na rede desde janeiro de 2002 - um ano e meio de pesquisa e amadurecimento. Após esse tempo, ficou claro que seria necessária uma reformulação do site para que uma única pessoa pudesse levá-lo adiante - principalmente quando essa pessoa tem outros compromissos a cumprir - afinal, este não é um site com fins lucrativos. 

Devido à falta de tempo, tive de extinguir algumas seções, como a agenda de shows, a seção de manifestos e a de novas bandas (agradeço a todas as pessoas que manifestaram interesse e enviaram material para estas seções. A enorme quantidade de interessados impossibilitou a continuidade delas - do contrário, meu trabalho no site teria de ser reduzido à simples diagramação dos releases recebidos). Preferi dedicar o pouco tempo que tenho disponível para o site para pesquisar temas fundamentais da história do reggae, como o rastafarianismo, que recebeu uma atenção especial. 

Em um momento em que o reggae vem sendo considerado mais um modismo passageiro, é necessário fincar nossas raízes profundamente no solo e resistir. Não podemos deixar que o reggae brasileiro se transforme num encadeamento de clichês vazios. Precisamos estudar o ritmo e toda a ideologia que o sustenta. Num mundo onde a propaganda e o marketing se desenvolvem cada vez mais, utilizando-se inclusive de recursos moralmente condenáveis, o homem que não conhece sua identidade está condenado a ser mero fantoche na mão dos detentores do capital. Precisamos aprender, precisamos estudar, precisamos nos dedicar. Não para competir uns com os outros, mas para criar novas possibilidades para o mundo confuso em que vivemos. 

A história não acabou, e nós somos os protagonistas encarregados de escrever seus próximos capítulos. Não podemos aceitar o discurso hegemônico presente em todos os meios de comunicação por acreditar que não existem alternativas. Nós precisamos criar as alternativas. Do contrário, todo o avanço científico e tecnológico alcançado pela humanidade continuará sendo utilizado para o enriquecimento de uma minoria. Do contrário, precisaremos abrir mão de nosso direito ao ócio para viver em função da ganância de terceiros. Do contrário, seremos sempre escravos iludidos por conceitos vagos como "democracia", "liberdade de expressão", "conforto" e "segurança". Nós somos os agentes da transformação. Para tanto, precisamos saber quem somos, de onde viemos, e para onde queremos ir. E precisamos, acima de tudo, ser quem agente é. We are what we are, and that´s the way it´s going to be. A singularidade de cada um de nós é a maior contribuição que temos para oferecer ao mundo. Já dizia o velho Leminsky: Isso de querer ser exatamente aquilo que agente é ainda vai nos levar além. Muito além.  

 

Fernando Andreolli, outono de 2003        


Casa do Reggae